Olhei,olhou,sorrimos.Era uma felicidade cúmplice.
Estavámos sentados em dois banquinhos em frente a um balcão,o gelo de nossos copos derretia lentamente e contávamos aquelas histórias de um não sei o quê que se encaixavam no papo - Pode sentir?- não entendi exatamente o que quis dizer,mas fiquei em silêncio,você também.
Mexi de leve o gelo no meu copo,aqueles pequenos giros com a mão, e me pus a confraternizar com o ambiente. Um ilustre desconhecido, isolado no outro canto, quase iluminado, discutia consigo mesmo os últimos versos de um poema enquanto o ar fumava o cigarro em sua mão.Parecia tão longe que me puxava também para um outro universo,não tão paralelo,mas distante.
O garoto do bar cuidava distraido de sua obrigação entre os copos,as bebidas, e os olhares assustados da moça no cartaz próximo à máquina de chopp, e fazia tudo isso acompanhando o blues do toca discos logo alí no canto.
Adivinhei,olhando de solsaio para trás, aqueles conjuntos de sofás com mesinhas,velhos conhecidos de não sei quando, abrigando algumas almas solitárias e um casalzinho desses bregas que se encontram por aí; Atrás disso ficava também uma parede com ilustrações que iam de fotos do Dylan a citações cômicas do Veríssimo.
-Senti.
Voltei então a girar mais uma vêz o gelo no meu copo,totalmente absorvida pelo ambiente que me cercava, os personagens, o aroma doce do incenso de canela,o blues de fim de noite,a luz e também a falta dela.
Sorri de leve,senti um pouco do frio de julho no rosto.Silêncio.E assim sua mão tocou levemente a minha -Quer ir?- Levantamos,pegamos luvas, cachecois, casacos e saímos.
A rua gelada nos recebeu rápido enquanto a porta do bar se fechava atrás de nós dando, como único sinal,o barulho de um sininho simpático do teto. Te dei a mão e fomos andando,meio que de mansinho, provavelmente com medo de não sentir mais aquilo.
Tudo alí conduzia a um conjunto de sensações: As ruas,quase escuras;as casas,quase em silêncio;o frio,quase cortante,e tudo tomava conta de mim.
Foi aí que pisquei -estúpida felicidade clandestina- uma,duas,três vezes... em alguns segundos tudo se desfazia e eu voltava ao ponto de partida.Era uma manhã quente de julho tropical,acordei sobresaltada,perdi o horário.Vidinha.
_________________Mariana Marise F.Leite
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