domingo, 6 de setembro de 2009

Pode sentir?

Olhei,olhou,sorrimos.Era uma felicidade cúmplice.
Estavámos sentados em dois banquinhos em frente a um balcão,o gelo de nossos copos derretia lentamente e contávamos aquelas histórias de um não sei o quê que se encaixavam no papo - Pode sentir?- não entendi exatamente o que quis dizer,mas fiquei em silêncio,você também.
Mexi de leve o gelo no meu copo,aqueles pequenos giros com a mão, e me pus a confraternizar com o ambiente. Um ilustre desconhecido, isolado no outro canto, quase iluminado, discutia consigo mesmo os últimos versos de um poema enquanto o ar fumava o cigarro em sua mão.Parecia tão longe que me puxava também para um outro universo,não tão paralelo,mas distante.
O garoto do bar cuidava distraido de sua obrigação entre os copos,as bebidas, e os olhares assustados da moça no cartaz próximo à máquina de chopp, e fazia tudo isso acompanhando o blues do toca discos logo alí no canto.
Adivinhei,olhando de solsaio para trás, aqueles conjuntos de sofás com mesinhas,velhos conhecidos de não sei quando, abrigando algumas almas solitárias e um casalzinho desses bregas que se encontram por aí; Atrás disso ficava também uma parede com ilustrações que iam de fotos do Dylan a citações cômicas do Veríssimo.
-Senti.
Voltei então a girar mais uma vêz o gelo no meu copo,totalmente absorvida pelo ambiente que me cercava, os personagens, o aroma doce do incenso de canela,o blues de fim de noite,a luz e também a falta dela.
Sorri de leve,senti um pouco do frio de julho no rosto.Silêncio.E assim sua mão tocou levemente a minha -Quer ir?- Levantamos,pegamos luvas, cachecois, casacos e saímos.
A rua gelada nos recebeu rápido enquanto a porta do bar se fechava atrás de nós dando, como único sinal,o barulho de um sininho simpático do teto. Te dei a mão e fomos andando,meio que de mansinho, provavelmente com medo de não sentir mais aquilo.
Tudo alí conduzia a um conjunto de sensações: As ruas,quase escuras;as casas,quase em silêncio;o frio,quase cortante,e tudo tomava conta de mim.
Foi aí que pisquei -estúpida felicidade clandestina- uma,duas,três vezes... em alguns segundos tudo se desfazia e eu voltava ao ponto de partida.Era uma manhã quente de julho tropical,acordei sobresaltada,perdi o horário.Vidinha.
_________________Mariana Marise F.Leite

Reiteração floral

Traço a traço
Refaço a ilustração daquela rosa
Que um dia se desfez.
Suas folhas não são mais as mesmas
Róseas
E sim vermelhas.
A disposição de suas pétalas
Já não é daquela que desabrocha
no início da vida.
Seus espinhos,agora muitos
Dificultam a colheita.
Já não é a mais bela
É, porém
mais interessante,intrigante.
Imagino que também deva possuir um novo aroma
Não como o de uma gota de orvalho
O que a faria morta
Mas um novo perfume
Fragrância que inunda a alma
Penetra nos sentidos.
Pouco a pouco
minha rosa se refaz.
E é como se já pudesse tocá-la
Senti-lá.
Seus detalhes
folhas,espinhos
Alfinetam-me o imaginário
Que ocorrera à flor?
Ela não é uma simples rosa
Talvez uma reconstrução de uma bela flor
despedaçada sem o mínimo cuidado
feita calma e lentamente.
Não é mais uma simples rosa
Remoldou-se
Remoldei
A impecável imagem de minha rosa
Que um dia despedacei.
________________Mariana Marise F.Leite

Oca

Minhas frases
Pensamentos
São uma torrente de palavras
Um fluxo incontrolável de personalidade a aflorar
São tudo
Nada:
Oca
Lá fora a chuva cai
Aqui dentro o dia vai
Olho tudo
Vejo o nada:
Oca
O sol ameaça um sorriso
Pássaros me enchem o ouvido
Escuto tudo
Ouço o nada:
Oca
Montes de areia se extinguem em minhas mãos
As ondas as puxam
buscam uma imensidão
E eu,
toco tudo
Sinto o nada:
Oca
Antíteses de mim mesma.
Tudo que se faz e desfaz ao alcance dos meus sentidos
Soa como um tudo
Mas,
no espelho da minha mente
e nas águas mais profundas do poço de minha alma
O borbulhar pensante lança a questão
E o turbilhão se faz em nada
Enquanto a mim?
alí,
tão Oca
Barroca.
_________Mariana Marise F.Leite

A dupla perfeita

Aquela cena se repetiu durante vários meses nas tardes ensolaradas de Quase Lá.O que se via era algo extremamente comum,mas faria brilhar os olhos de qualquer observador.
Eles eram uma dupla perfeita.Andavam de mãos dadas pela praça.Ela segurava a mão dele com a maior segurança do mundo.Ele sorria para ela como se observasse a coisinha mais linda .Ela andava com dificuldade,tropeçando nos paralelepípedos e ele andava devagar,já apresentando os sinais da idade.
Enquanto eles andavam ele esperava calmamente aquela criaturinha observar os pássaros que ali pousavam.Ela os analisava milímetro a milímetro, das penas até o bico,como se cada um fosse a mais rara jóia já vista.
Depois de um tempo, sentavam em um banco.Ele contava a ela coisas sobre a vida,sobre o mundo,sobre tudo o que ela um dia entraria em contato e ela o escutava com a atenção de uma estudante apaixonada.
Quem os observava,vendo todo aquele carinho,aquela cumplicidade,via também dois extremos.Ele tinha lá seus oitenta anos,rugas sofridas,olhos cansados e uma expressão de quem já vira muito mais do que qualquer livro pode contar.Já ela, assemelhava- se com uma flor que esperava ansiosamente para desabrochar,com seus olhinhos brilhantes e azuis,suas bochechas rosadas,seu macacão cor de rosa e sua pequena boneca nos braços.
Eram tão lindos de observar que até comoviam.Avô e neta eram tão distantes e ao mesmo tempo tão próximos,os últimos e os primeiros passos de duas vidas tão brilhantes.
Era possivel observar aquela cena todas as tardes até o por do sol quando ele,já um pouco cansado levantava-se e oferecia-lhe a mão anunciando o final do passeio.
_________________________________________________Mariana Marise F.Leite

O verão

Confesso que não me agrada o verão.Não existe temporada mais incômoda do que esta para quem vive num país tropical como o nosso,não é?
Se você anda,corre, fala,come,dorme,respira ou faz qualquer tipo de atividade acaba por perder litros mais e litros de água.Nenhum lugar é suficientemente agradável a menos que tenha no mínimo um ventilador ligado na potência máxima.
Nesse tempo as pessoas se irritam com uma facilidade inacreditável,mais ou menos como se o portão do inferno se abrisse e miniaturas de capetinhas espetassem todo aquele que cruza seu caminho.
Se alguém inventa de ir à praia, corre sempre o risco de estar colocando em prática a mesma idéia que outros milhares têm para se refrescar. O resultado disso?Não dá para ver o mar direito,a praia fica super suja, os vendedores cobram um absurdo por um petisco e, junto com outros milhares, ele fica lá sentado na areia tostando até começar a trocar de pele e ficar parecido com aquela cobra que viu num dos milhares de programas sobre animais exibidos na TV.
Se alguém pega ônibus,ainda que o coletivo tenha umas nove mil janelas, fica abafado,as poltronas ficam quentes e os únicos lugares vazios são os do lado do sol.Isso tudo ainda é somado à superlotação,ao cheiro de suor e ao máximo de contacto humano entre os passageiros nos horários de pico.
Se quer se arrumar para alguma ocasião,a melhor opção é desistir da idéia:mais calor leva ao uso de cada vez menos roupas e quanto menor a quantidade de roupas,menos elegante pessoa está.
Não podemos esquecer também que nessa maravilhosa estação do ano em que os pássaros cantam mais e o céu é mais azul e límpido,mosquitos também picam mais e cachorros ficam muito menos animados para fazer qualquer tipo de atividade.
Contando com o fato de que todas as opções de lazer que temos no verão envolvem sombra e água fresca os moradores de grandes centros urbanos acabam por ter de procurar lugares cada vez mais afastados de suas casas,afinal de contas,quanto mais urbanizada a cidade menor a possibilidade de encontrar um lugar onde a sombra não seja a de um prédio e a água fresca não seja a da torneira.
Depois de escrever tudo isso, acabei por lembrar de uma música a qual um trecho me faz lembrar claramente o que sinto no verão nos seu piores momentos:
"I'm on the highway to hell!"
O que me conforta é que se alguém gosta de verão provavelmente não terá problemas de adaptação dentro de uma panela se em outra encarnação nascer como uma galinha.
_______________________________________________Mariana Marise F. Leite